Quais são as correntes históricas?

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O estudo de trajetórias individuais define quais são as correntes históricas focadas em sujeitos comuns e casos específicos. Carlo Ginzburg publica obra sobre um único moleiro em 1976 em vez da Reforma inteira. A obra investiga a mistura entre culturas popular e erudita no século XVI através de registros da Inquisição.
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Quais são as correntes históricas? O estudo de Ginzburg

Compreender quais são as correntes históricas assegura uma análise profunda da sociedade sob novas perspectivas. Estudar a vida de pessoas comuns revela detalhes fundamentais sobre a cultura de uma época. Este conhecimento evita interpretações superficiais và amplia a visão sobre as complexas relações sociais do passado.

Quais são as correntes históricas?

As principais correntes historiográficas incluem o Positivismo, focado na objetividade documental; o Materialismo Histórico (Marxismo), que analisa a luta de classes e a economia; a Escola dos Annales, que introduziu a história das mentalidades e a longa duração; e a Nova História, que abrange a Micro-história e a História Cultural. Cada uma oferece uma lente diferente para interpretar o passado, dependendo se você busca fatos políticos, estruturas econômicas ou o cotidiano das pessoas comuns.

O Que São Exatamente as Correntes Historiográficas?

Pense nas correntes históricas não como regras rígidas, mas como óculos diferentes. Se você colocar os óculos do Positivismo, verá datas e heróis. Se trocar pelos óculos do Marxismo, verá operários e patrões. A realidade não mudou, apenas o seu foco.

Quando entrei na faculdade de História, achei que precisaria apenas decorar datas de batalhas. Grande erro. Passei o primeiro semestre inteiro debatendo quais são as correntes históricas, não apenas o que aconteceu. Essa é a historiografia: o estudo de como os historiadores constroem a narrativa do passado.

Positivismo: A Obsessão pelos Fatos e Documentos

Nascido no século XIX, o Positivismo (ou História Tradicional) tratava a história quase como uma ciência exata. A regra de ouro era simples: sem documentos, não há história. Se não estava escrito em um papel timbrado do Estado, não aconteceu.

Os historiadores dessa época acreditavam na neutralidade absoluta. Eles achavam que bastava coletar os fatos e deixá-los falar por si mesmos. Soa ingênuo hoje? Talvez. Mas foi essa corrente que profissionalizou a história, separando-a da literatura e da filosofia. O grande problema era que ela ignorava 99% da população — mulheres, camponeses, escravizados — focando apenas em reis, generais e diplomatas.

Materialismo Histórico: A História é Luta (Marxismo)

Enquanto os positivistas olhavam para los gabinetes reais, Karl Marx e Friedrich Engels olhavam para as fábricas. Com a formulação por Karl Marx e Friedrich Engels em 1845, surgiu uma nova forma de ver o mundo: o Materialismo Histórico. [2]

Aqui, a economia é a base de tudo. O conceito central não é o grande homem, mas a luta de classes. A história avança através do conflito entre quem detém os meios de produção (burguesia) e quem vende sua força de trabalho (proletariado). Para um historiador marxista, entender a Revolução Francesa não é decorar o nome de Robespierre, mas analisar o preço do pão e a ascensão da burguesia comercial.

Infraestrutura vs. Superestrutura

A ideia é contra-intuitiva no começo. Marx propõe que a cultura, a religião e a política (superestrutura) são reflexos diretos ou indiretos da base econômica (infraestrutura). Ou seja, a forma como produzimos nossos sapatos e comidas define como pensamos e votamos.

Escola dos Annales: A Revolução de 1929

Se você acha história chata, culpe os positivistas. Se acha interessante, agradeça aos Annales. Fundada em 1929 por Marc Bloch e Lucien Febvre, esta escola francesa virou a mesa. Eles disseram: Tudo é história. O clima, a geografia, a psicologia, a alimentação — tudo importa.

A grande sacada foi o conceito de longa duração (longue durée), uma das características da escola dos annales popularizada mais tarde por Fernand Braudel em sua obra sobre o Mediterrâneo (1949). Em vez de focar no evento político que dura um dia (como uma batalha), eles olhavam para estruturas que demoram séculos para mudar, como as tradições agrícolas ou as mentalidades religiosas.

Vou ser sincero: ler Braudel exige paciência. Ele pode gastar 300 páginas descrevendo ventos e correntes marítimas antes de mencionar um único rei. Mas quando você entende o porquê, sua visão de mundo muda. Você percebe que o ambiente molda a história tanto quanto as decisões humanas.

Nova História e Micro-história: O Zoom no Cotidiano

A partir da década de 1970, surgiu a Nova História (Nouvelle Histoire), abrangendo a história cultural e micro-história. O foco mudou do macro (economia, nações) para o micro (um vilarejo, uma família, um indivíduo comum).

Um marco clássico é o livro O Queijo e os Vermes, publicado por Carlo Ginzburg em 1976.[4] Ginzburg não estudou a Reforma Protestante inteira; ele estudou um único moleiro italiano chamado Menocchio, que foi queimado pela Inquisição por acreditar que o mundo surgiu da podridão como vermes no queijo. Ao analisar a vida desse homem desconhecido, Ginzburg revelou como a cultura popular e a erudita se misturavam na Europa do século XVI.

Comparativo: Qual Lente Usar?

Cada corrente histórica oferece ferramentas diferentes. Não existe uma 'melhor', apenas a mais adequada para sua pergunta de pesquisa.

Positivismo (Tradicional)

Fatos políticos, diplomáticos e militares; 'Grandes Heróis'

Apenas documentos escritos oficiais (leis, tratados)

Narrar 'como realmente aconteceu' com neutralidade absoluta

Materialismo Histórico (Marxismo)

Luta de classes, modos de produção, economia

Registros econômicos, censos, dados de produção

Transformar a sociedade e explicar as desigualdades

Escola dos Annales ⭐

Todas as atividades humanas (mentalidades, geografia, cotidiano)

Tudo: arte, arqueologia, clima, tradição oral, mapas

História total e interdisciplinar (diálogo com geografia/sociologia)

Para pesquisas acadêmicas atuais, a Escola dos Annales e a Nova História dominam o cenário, pois permitem uma abordagem mais rica e humana. O Positivismo puro raramente é usado hoje, mas seus métodos de crítica documental ainda são a base do ofício.

O Dilema do TCC de Lucas: De Reis a Receitas

Lucas, estudante de História no Rio de Janeiro, queria escrever sobre a vinda da Família Real em 1808. Inicialmente, ele tentou uma abordagem positivista, focando apenas nos decretos de D. João VI. Resultado? O texto ficou seco, parecendo uma cópia da Wikipédia, e ele travou no segundo capítulo.

Seu orientador sugeriu mudar a lente. Lucas tentou então a História Cultural (Nova História). Em vez de ler leis, ele foi aos arquivos buscar listas de compras da corte e diários de moradores comuns da época.

A virada aconteceu quando ele encontrou registros sobre o aumento súbito no consumo de frango e o aluguel inflacionado das casas no Rio. Os 'grandes eventos' sumiram, dando lugar ao caos cotidiano de uma cidade que dobrou de população da noite para o dia.

Lucas percebeu que a história não estava nos decretos, mas no impacto real na vida das pessoas. Seu trabalho final, focado na 'alimentação e moradia no Rio Joanino', tirou nota máxima não por citar leis, mas por mostrar como a cidade cheirava e soava em 1808.

Visão geral

História não é passado, é pergunta

Cada corrente faz perguntas diferentes ao mesmo passado: o Positivismo pergunta 'quem', o Marxismo pergunta 'por que ($)', e os Annales perguntam 'como se vivia'.

Documento não é só papel oficial

A Escola dos Annales expandiu o conceito de fonte histórica para incluir pinturas, ferramentas, músicas e até o clima, permitindo estudar quem não deixou escritos.

O detalhe revela o todo

A Micro-história provou, com obras como 'O Queijo e os Vermes' (1976), que estudar a vida de uma única pessoa comum pode explicar a cultura de uma época inteira melhor que biografias de reis.

Perguntas do mesmo tema

Qual é a corrente histórica mais usada hoje?

Não existe uma única dominante, mas a Nova História Cultural e a História Social (herdeiras dos Annales e do Marxismo) são as mais influentes nas universidades. A tendência atual é o ecletismo: historiadores usam ferramentas de várias correntes dependendo do objeto de estudo, misturando análise econômica com mentalidades.

O marxismo acabou como método histórico?

Longe disso. Embora o determinismo econômico rígido tenha perdido força, as categorias de análise marxista — como classe social e acumulação de capital — continuam fundamentais. Hoje, muitos historiadores praticam um 'marxismo renovado', como E.P. Thompson, que foca na experiência cultural da classe trabalhadora, não apenas na economia.

Para aprofundar seu conhecimento sobre o tema, veja também Quais são as principais correntes da historiografia?

Preciso escolher uma corrente antes de começar a pesquisar?

Geralmente, a escolha acontece durante a pesquisa. Você pode começar com uma pergunta (o problema) e perceber que só a Micro-história consegue respondê-la. Tentar forçar uma teoria antes de ver os documentos é um erro comum que distorce a realidade para caber no molde.

Fontes

  • [2] Mundoeducacao - Com a formulação por Karl Marx e Friedrich Engels em 1845, surgiu uma nova forma de ver o mundo: o Materialismo Histórico.
  • [4] Pt - Um marco clássico é o livro O Queijo e os Vermes, publicado por Carlo Ginzburg em 1976.