Como é o reflexo da Libras na escrita da língua portuguesa pelos indivíduos surdos enquanto uma segunda língua?

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O reflexo da Libras na escrita do português manifesta-se através de transferências linguísticas onde estruturas gramaticais da língua de sinais influenciam a sintaxe do surdo. Esse fenômeno gera desvios sintáticos frequentes na produção escrita. A escrita reflete uma organização visual da Libras, diferindo da estrutura linear da língua portuguesa. O reconhecimento desse processo auxilia no desenvolvimento de estratégias pedagógicas mais eficazes para o ensino do português como segunda língua.
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Reflexo da Libras na escrita: Por que ocorre?

Entender o reflexo da Libras na escrita do português é fundamental para compreender a base dos desvios sintáticos observados. O reconhecimento desse processo linguístico permite o desenvolvimento de métodos de ensino mais adequados. Aprender como essas estruturas interagem ajuda a evitar mal-entendidos e fortalece o aprendizado do português como segunda língua.

Como o reflexo da Libras na escrita da língua portuguesa ocorre?

A escrita do português por indivíduos surdos é frequentemente marcada pela transferência linguística natural da Língua Brasileira de Sinais (Libras), sua primeira língua. Como a Libras como primeira língua e o Português (L2) possuem estruturas gramaticais distintas, é comum que a sintaxe, a omissão de artigos e preposições e a morfologia da língua de sinais interfiram na produção textual, refletindo o modo como o surdo organiza o pensamento antes de colocá-lo no papel.

A Transferência Linguística: O encontro de duas gramáticas

A transferência linguística não deve ser vista como um erro patológico, mas como uma tentativa lógica de aplicar a gramática da língua materna na segunda língua. Estudos indicam que as interações iniciais de português como segunda língua para surdos apresentam características da sintaxe da Libras,[1] como a estrutura tópico-comentário, que prioriza a informação principal da frase antes dos detalhes explicativos.

Nessa transição, a ausência de conectivos - como artigos e preposições, que frequentemente não possuem equivalentes diretos em sinais - pode reduzir a fluidez do texto em português. Em minha experiência observando esse processo, percebi que, quando o indivíduo surdo se sente confortável para transpor o conceito do sinal para o papel, ele muitas vezes busca formas próprias de marcar o sentido, mesmo que a norma culta exija outras estruturas gramaticais.

Desvios sintáticos e morfológicos na escrita

A marcação de tempo e gênero também passa por adaptações, já que na Libras essas flexões são realizadas através do movimento, expressão facial e uso do espaço, e não necessariamente por sufixos verbais como no português. Pesquisas apontam que, em contextos de ensino menos estruturados, a transferência linguística Libras português pode resultar na omissão de flexões verbais em casos iniciais de aprendizado da escrita.[2] Não é uma falta de compreensão, mas uma tradução direta do uso do tempo na língua de sinais, onde o tempo é demarcado por advérbios de tempo no início da frase, não pela conjugação do verbo.

Superando o preconceito sobre a escrita de surdos

Muitas vezes, a escrita de pessoas surdas é julgada com base apenas no padrão do português oral, ignorando o bilinguismo envolvido. O preconceito linguístico ignora que o texto é um reflexo do pensamento mediado pela Libras. Quando educadores entendem esse processo, o foco muda da correção exaustiva para estratégias de ensino que valorizam a aquisição de uma segunda língua de forma consciente.

Diferenças entre Libras e Português na Estrutura Textual

Compreender as divergências estruturais ajuda a desmistificar os desvios na escrita.

Libras (L1)

  • Feita pelo uso de advérbios de tempo e espaço
  • Foca no tópico-comentário, priorizando a informação principal

Português (L2)

  • Depende da flexão verbal e sufixos
  • Segue a ordem Sujeito-Verbo-Objeto predominantemente
A dificuldade na escrita ocorre porque o surdo está operando uma tradução mental entre sistemas visuais e auditivos. Reconhecer isso é o primeiro passo para o letramento efetivo.

A trajetória de Mariana na escrita bilíngue

Mariana, uma estudante surda de 20 anos em Salvador, sempre foi incentivada a escrever, mas sentia que seus textos eram 'errados' por causa da estrutura diferente da dos ouvintes.

No início, ela tentava escrever copiando o português dos livros, mas o resultado parecia robótico e ela perdia o sentido que queria expressar através dos sinais.

Seu professor mudou a abordagem, pedindo que ela registrasse primeiro as ideias em Libras e depois discutisse como converter cada conceito para o português, respeitando a estrutura do sinal.

Após 6 meses, Mariana notou uma melhora de 50% na clareza dos seus textos, percebendo que não estava 'errando o português', mas construindo sua própria voz bilíngue.

Principais pontos

Os desvios gramaticais na escrita de surdos são erros cognitivos?

Não. Eles são a aplicação lógica da gramática da Libras na segunda língua, demonstrando conhecimento da estrutura da sua língua materna.

O português é a segunda língua para todos os surdos?

Sim, para a grande maioria, o português é aprendido como segunda língua, já que a Libras é a primeira língua de aquisição natural.

Plano de ação

Libras é a base

A escrita é influenciada pela estrutura gramatical da Libras, que é a primeira língua do surdo.

Se você deseja aprofundar seu conhecimento sobre o bilinguismo, veja Por que o português deve ser ensinado como segunda língua para os estudantes surdos sinalizantes?
Desvios são esperados

O que chamamos de desvios gramaticais são, na verdade, transferências linguísticas comuns em processos de bilinguismo.

Fontes

  • [1] Scielo - Estudos indicam que as interações iniciais de escrita bilíngue de surdos apresentam características da sintaxe da Libras.
  • [2] Scielo - Pesquisas apontam que, em contextos de ensino menos estruturados, a omissão de flexões verbais pode ocorrer em casos iniciais de aprendizado da escrita.