Por que a língua de sinais não é universal?

159 visualizações
A explicação sobre por que a língua de sinais não é universal foca na existência de mais de 250 línguas diferentes no planeta. Cada uma delas possui estrutura gramatical complexa, fonologia própria e vocabulário independente da língua oral local. A Libras sofreu forte influência francesa em 1857, distanciando-se da estrutura usada em Portugal.
Comentário 0 curtidas

Por que a língua de sinais não é universal: mais de 250

Compreender por que a língua de sinais não é universal ajuda a evitar equívocos comuns ao planejar a comunicação em viagens internacionais. Muitas pessoas subestimam a independência cultural e linguística dessas comunidades, enfrentando sérias barreiras de diálogo fora de seus países. Conhecer essa rica diversidade regional evita frustrações desnecessárias e protege seus planos.

Por que a língua de sinais não é universal?

As línguas de sinais não são universais porque elas são línguas naturais que evoluem de forma espontânea dentro das comunidades surdas locais, da mesma forma que os idiomas falados se desenvolvem em diferentes regiões geográficas. Muitas pessoas presumem erroneamente que os gestos são uma criação artificial ou uma simples tradução da fala, mas a realidade é que cada país possui sua própria cultura, história e identidade refletidas em sua sinalização. Compreender essa diversidade cultural e linguística depende diretamente de analisar o contexto específico de isolamento e interação social de cada comunidade surda ao longo dos séculos.

Atualmente, o cenário global demonstra o tamanho dessa diversidade: existem mais de 250 línguas de sinais diferentes em uso no planeta.[1] Cada uma delas possui uma estrutura gramatical complexa, fonologia própria (baseada na configuração das mãos, pontos de articulação e movimentos) e um vocabulário independente da língua oral local.

Lembro-me bem de quando comecei a me interessar pela área e comprei um dicionário de Libras (Língua Brasileira de Sinais) achando que conseguiria me comunicar em viagens internacionais. Fiquei completamente frustrado ao descobrir que o esforço não serviria de nada fora do Brasil. Esse erro comum acontece porque subestimamos a independência dessas línguas.

A independência da língua oral: O caso curioso do inglês

Uma das maiores barreiras para entender porque a lingua de sinais nao e universal reside no mito de que ela é um espelho da língua falada. Se a língua gestual dependesse do idioma oral, países que compartilham a mesma fala deveriam compartilhar os mesmos sinais. Mas a verdade é o oposto. Mas há um detalhe crucial que a maioria das pessoas ignora e que explicarei detalhadamente na seção sobre as raízes históricas logo abaixo.

Para ilustrar essa separação, basta observar os Estados Unidos e o Reino Unido. Ambos os países utilizam o inglês como idioma principal. No entanto, a ASL (American Sign Language) e a BSL (British Sign Language) são mutuamente incompreensíveis. Um surdo americano e um surdo britânico conversando teriam tanta dificuldade para se entender quanto um falante de português e um falante de mandarim. Enquanto o alfabeto manual da ASL utiliza apenas uma das mãos, a BSL utiliza as duas mãos para soletrar palavras. Essa quebra de padrão prova que a evolução visual segue caminhos totalmente alheios à fonética da fala.

Origem da língua de sinais e as matrizes históricas distintas

Para entender essa fragmentação global, precisamos olhar para o passado e para como a origem da língua de sinais foi estruturada nas primeiras escolas de surdos. As línguas de sinais ganharam força e estrutura formal a partir do momento em que os surdos foram reunidos em instituições de ensino. E aqui reside a resposta para o mistério do inglês que mencionei anteriormente: a ASL americana não nasceu da vertente britânica, mas sim da francesa.

No início do século dezenove, educadores americanos viajaram para a Europa em busca de metodologias de ensino. Eles foram rejeitados na Inglaterra, que protegia seus métodos comerciais a sete chaves, mas foram acolhidos em Paris por especialistas franceses.

Como resultado, a língua de sinais dos Estados Unidos herdou a matriz histórica da Língua de Sinais Francesa (LSF). É por isso que, hoje, a ASL compartilha quase 60% de similaridade em seu vocabulário com a língua francesa de sinais, e praticamente zero com a britânica.[2]

No contexto da península ibérica, a diferença entre libras e lgp segue lógica parecida. Embora o português oral nos aproxime, a Libras sofreu forte influência da antiga linguagem gestual francesa trazida ao Brasil em 1857, distanciando-a da estrutura usada em Portugal.

Existe uma língua de sinais universal? O papel do Gestuno

Diante de tantas variantes, é natural questionar se a comunidade internacional não tentou criar uma língua de sinais universal. A resposta para isso é o Gestuno, também conhecido formalmente como Língua de Sinais Internacional (LSI). No entanto, o Gestuno está longe de ser um idioma nativo ou uma solução universal definitiva.

O Gestuno funciona de forma semelhante ao Esperanto nas línguas orais. Ele não possui regras gramaticais profundas ou uma comunidade que o utilize no cotidiano familiar. Em vez disso, trata-se de um sistema de comunicação artificial e simplificado, composto por cerca de 1.500 sinais básicos combinados com uma forte carga de mímica e expressão corporal. Ele [3] é empregado estritamente em contextos específicos, como congressos mundiais da Federação Mundial de Surdos, as Surdolimpíadas ou em transmissões institucionais da ONU. Fora desses ambientes diplomáticos, os surdos preferem usar suas línguas nativas regionais para expressar sentimentos, gírias e pensamentos complexos.

Comparativo entre Sistemas e Línguas de Sinais

Para compreender como as línguas de sinais diferem estruturalmente e historicamente, veja abaixo as características de três modalidades principais e do sistema internacional.

Libras (Língua Brasileira de Sinais)

  • Forte influência da Língua de Sinais Francesa mesclada com sinais locais
  • Utiliza apenas uma das mãos para a maior parte das letras datilológicas
  • Língua oficial da comunidade surda no Brasil, reconhecida por lei federal

ASL (American Sign Language)

  • Derivada diretamente da raiz francesa do século dezenove
  • Desenvolvido estritamente com o uso de uma única mão
  • Utilizada nos Estados Unidos e em grande parte do Canadá

BSL (British Sign Language)

  • Desenvolvimento isolado dentro das ilhas britânicas
  • Exige o uso coordenado das duas mãos para a composição das letras
  • Adotada no Reino Unido, sem relação linguística com a versão americana

Gestuno (Língua de Sinais Internacional)

  • Criação artificial e padronizada por comitês internacionais
  • Mescla de sinais icônicos universais e mímica descritiva
  • Restrito a eventos globais, sem falantes nativos no dia a dia
A comparação deixa claro que a proximidade do idioma oral não dita as regras do idioma gestual. Enquanto o Brasil e os Estados Unidos compartilham heranças da escola francesa de sinais, o Reino Unido seguiu um caminho isolado, forçando o surgimento de um sistema internacional artificial como o Gestuno para interações diplomáticas.

A experiência de intercâmbio de Mariana em Portugal

Mariana, uma estudante universitária surda de São Paulo, viajou para Lisboa em um programa de intercâmbio. Ela acreditava piamente que, por dominar a Libras e saber que Portugal utilizava a Língua Gestual Portuguesa, a barreira do idioma seria inexistente.

A primeira tentativa de interação na faculdade foi caótica. Ao tentar sinalizar expressões cotidianas simples, os colegas portugueses ficaram olhando para ela com rostos confusos. A frustração aumentou quando ela percebeu que sinais de objetos básicos eram totalmente diferentes.

O momento de virada aconteceu quando Mariana parou de tentar forçar a gramática da Libras. Ela começou a observar os pontos de articulação locais e percebeu as diferenças históricas que afastavam os dois sistemas visuais.

Após três semanas de ajustes e aprendizado prático, Mariana conseguiu criar um vocabulário híbrido para se comunicar. Ela compreendeu na pele que a identidade cultural e geográfica molda os gestos de forma única, desmistificando a ideia de uma língua universal.

Próximas informações relacionadas

Se as línguas de sinais são diferentes, como os surdos de vários países conversam em eventos globais?

Eles utilizam a Língua de Sinais Internacional, também conhecida como Gestuno. Esse sistema funciona como uma ferramenta de apoio simplificada, baseada em sinais altamente visuais, mímica e expressões faciais intuitivas para superar as diferenças gramaticais locais.

O alfabeto manual é o mesmo em todo o mundo?

Não, o alfabeto datilológico varia drasticamente. Países como o Brasil e os Estados Unidos usam um sistema baseado em apenas uma das mãos, enquanto o Reino Unido e a Austrália utilizam as duas mãos para formar as letras no espaço visual.

Por que a língua de sinais não é considerada mímica?

A mímica apenas imita ações ou objetos de forma solta e sem regras. As línguas de sinais possuem estruturas gramaticais complexas, regras morfológicas, sintaxe e verbos com flexão de direção, o que as caracteriza como línguas completas.

Conceitos importantes

Evolução cultural autônoma

As línguas gestuais nascem de forma espontânea nas comunidades locais e refletem a cultura e os hábitos regionais de seus falantes.

Se você deseja compreender melhor essas variações estruturais, descubra porque cada país tem uma língua de sinais diferente.
Independência total da fala

Compartilhar a mesma língua falada (como o inglês nos EUA e Reino Unido) não garante a mesma língua de sinais.

Existência de mais de 250 variantes

A imensa variedade de línguas vivas pelo mundo inviabiliza a existência de um único idioma visual que seja universal.

Gestuno como sistema auxiliar

A Língua de Sinais Internacional existe, mas funciona apenas como um recurso técnico e artificial para eventos de grande porte.

Materiais de Referência

  • [1] En - Atualmente, o cenário global demonstra o tamanho dessa diversidade: existem mais de 250 línguas de sinais diferentes em uso no planeta.
  • [2] En - Como resultado, a ASL compartilha quase 60% de similaridade em seu vocabulário com a língua francesa de sinais, e praticamente zero com a britânica.
  • [3] En - O Gestuno funciona de forma semelhante ao Esperanto nas línguas orais. Ele não possui regras gramaticais profundas ou uma comunidade que o utilize no cotidiano familiar. Em vez disso, trata-se de um sistema de comunicação artificial e simplificado, composto por cerca de 1.500 sinais básicos combinados com uma forte carga de mímica e expressão corporal.