Qual é a principal diferença entre Libras e outras línguas de sinais usadas no mundo?

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A Libras é única, com gramática, vocabulário e cultura próprios. Reconhecida pelo governo brasileiro como língua oficial, ela se desenvolveu com base na história e cultura da comunidade surda do país, assim como qualquer idioma natural.

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A Singularidade da Libras no Mundo das Línguas de Sinais: Mais que um Simples “Idioma de Mãos”

A Libras (Língua Brasileira de Sinais) frequentemente é confundida com outras línguas de sinais existentes ao redor do globo. A percepção comum é a de que todas são essencialmente a mesma, apenas com variações lexicais menores. No entanto, esta concepção é profundamente equivocada. A principal diferença entre a Libras e outras línguas de sinais reside na sua estrutura linguística intrínseca e na sua profunda ligação com a história e a cultura surda brasileira.

Enquanto línguas de sinais compartilham alguns elementos visuo-espaciais básicos, como a utilização de gestos e expressões faciais, a Libras, assim como outras línguas de sinais estabelecidas (como a ASL – American Sign Language ou a BSL – British Sign Language), possui uma gramática própria, com regras sintáticas e morfológicas complexas e distintas. Não se trata apenas de traduzir palavras de uma língua oral para gestos correspondentes. A estrutura frasal, a concordância verbal, a formação de tempos verbais e a utilização de marcadores discursivos são aspectos gramaticais que variam significativamente de uma língua de sinais para outra. A Libras, por exemplo, utiliza marcadores espaciais de forma singular para indicar relações gramaticais e tempos verbais, algo que pode ser diferente em outras línguas.

Além da gramática, o léxico (vocabulário) também se diferencia substancialmente. Embora existam alguns sinais que podem apresentar semelhanças superficiais entre diferentes línguas de sinais, a maioria deles é única e reflete a história e as experiências da comunidade surda que a utiliza. A Libras, por exemplo, incorporou sinais relacionados à cultura brasileira, à história do país e a eventos específicos da comunidade surda brasileira, tornando-a um reflexo único da realidade sociocultural nacional. Imagine tentar traduzir um termo culturalmente específico, como “pagode”, diretamente para uma língua de sinais de outro país – a tradução literal seria provavelmente incompreensível e desprovida do significado cultural inerente.

A oficialização da Libras no Brasil, consolidada por lei, reforça sua importância e sua singularidade. Esse reconhecimento legal garante o direito ao uso da língua em diversos contextos sociais, educacionais e profissionais, promovendo a inclusão da comunidade surda e o desenvolvimento pleno da própria língua. Esta trajetória jurídica e social também contribui para a construção de uma identidade linguística e cultural única, diferenciando ainda mais a Libras de outras línguas de sinais.

Em suma, a principal diferença entre a Libras e outras línguas de sinais não se limita a pequenas variações lexicais. Trata-se de um sistema linguístico complexo e autônomo, com sua própria gramática, vocabulário e cultura, moldado pela história e pelas experiências da comunidade surda brasileira. Comparar a Libras a outras línguas de sinais como se fossem meros dialetos de uma mesma língua é ignorar a riqueza e a complexidade de sua estrutura e a sua importância como veículo de identidade cultural e social.