Porque os surdos têm dificuldade em falar?

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A surdez profunda dificulta a fala, principalmente na percepção de sons vibratórios (sonoros), na articulação de fonemas produzidos na parte posterior da boca (como R, K), e na compreensão da produção vocal em si.

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O Desafio da Fala para Pessoas Surdas: Mais do que Ausência de Audição

A crença de que pessoas surdas não falam é um equívoco nocivo. A realidade é mais complexa e envolve uma interação intrincada entre audição, percepção e desenvolvimento da fala. A dificuldade em falar para indivíduos com surdez profunda não se resume simplesmente à falta de audição; ela resulta de um processo de desenvolvimento da linguagem significativamente diferente do de ouvintes.

A ausência ou diminuição significativa da audição impacta diretamente na aquisição da fala de diversas maneiras:

1. Percepção Vibratória Limitada: A fala não é apenas um som aéreo. Ela envolve vibrações que se propagam pelo corpo, especialmente no crânio e na garganta. Essas vibrações são cruciais para a percepção da própria fala e para o desenvolvimento da articulação precisa. Um surdo profundo tem acesso limitado a essas informações vibratórias, dificultando o monitoramento e a correção da própria produção vocal. A sensação tátil da vibração das cordas vocais, por exemplo, é fundamental para o controle da intensidade e da frequência da voz.

2. Dificuldade na Discriminação Fonêmica: A falta de percepção auditiva afeta a capacidade de discriminar os sons da fala, ou fonemas. Esta dificuldade é especialmente evidente com fonemas que são produzidos na parte posterior da boca, como os consoantes /k/, /g/ e /r/. A percepção visual da articulação pode auxiliar, mas não substitui completamente a informação auditiva. A falta de feedback auditivo impede a pessoa surda de ajustar sua articulação para produzir os sons de forma clara e consistente.

3. Desenvolvimento da Linguagem Atrapalhado: A audição é fundamental para o desenvolvimento da linguagem na primeira infância. A exposição precoce à fala e à linguagem, através da audição, é crucial para o cérebro desenvolver as conexões neurais necessárias para a compreensão e a produção da linguagem. Para pessoas surdas, a ausência desse estímulo auditivo precoce implica em um caminho de desenvolvimento da linguagem diferente, podendo levar a dificuldades na pronúncia, na fluência e na construção de frases. A modalidade de comunicação utilizada (Libras, por exemplo) influencia diretamente este desenvolvimento, mas não anula as dificuldades inerentes à falta de acesso pleno à informação sonora.

4. Impacto Emocional e Social: A dificuldade em falar pode gerar frustração, insegurança e baixa autoestima. O impacto social também é significativo, já que a comunicação verbal é a principal forma de interação em muitas sociedades. É crucial lembrar que a falta de fluência na fala não reflete a inteligência ou capacidade cognitiva da pessoa surda.

Em resumo, a dificuldade em falar para pessoas surdas é multifatorial e profundamente relacionada à ausência de estímulos auditivos essenciais para o desenvolvimento da linguagem e da fala. Compreender essa complexidade é fundamental para desenvolver estratégias de intervenção eficazes e promover a inclusão social desses indivíduos. A valorização da comunicação em Libras e o apoio para o desenvolvimento da fala, quando desejado, são elementos cruciais para garantir o pleno desenvolvimento das pessoas surdas.