Porque cada país tem uma língua de sinais diferente?
Por que cada país tem uma língua de sinais diferente? Mais de 130
É muito comum questionar por que cada país tem uma língua de sinais diferente, pois muitos imaginam a existência de uma única versão mundial. Entender os motivos dessa separação linguística evita frustrações ao tentar se comunicar em viagens internacionais. Continue lendo para descobrir a fascinante origem histórica dessa separação.
Por que cada país tem uma língua de sinais diferente?
As línguas de sinais não são universais.
Cada país desenvolve a sua própria língua devido ao isolamento geográfico e à evolução cultural local das comunidades surdas.
Estima-se que existam entre 130 e 300 línguas de sinais diferentes em todo o mundo.
Para ser sincero, a maioria das pessoas pensa que existe apenas uma versão mundial.
Eu também pensava assim no início.
Mas há um fator histórico muito contra-intuitivo que explica por que as línguas se dividiram tanto - e eu vou explicar isso na seção de história logo abaixo.
Muito além da mímica
A língua de sinais não é apenas gesticulação aleatória.
Ela possui gramática própria.
Sintaxe visual.
Expressões faciais estruturadas.
Tudo isso forma um idioma completo e complexo.
Quando pessoas surdas de diferentes regiões se encontram em um ambiente social, desenvolvem sistemas de comunicação mútua que evoluem organicamente ao longo dos anos.
A independência das línguas faladas
A lógica sugere que países com o mesmo idioma oral teriam a mesma língua de sinais - e isso surpreende muita gente - mas a realidade é exatamente o oposto.
A língua de sinais não é uma tradução gestual da língua falada local.
O caso da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e da Língua Gestual Portuguesa (LGP) é o melhor exemplo.
O Brasil e Portugal partilham a língua portuguesa.
A lógica diria que a comunicação seria imediata.
Realidade?
Elas possuem estruturas gramaticais e sinais completamente diferentes.
Lembro da frustração na primeira vez que tentei assistir a um noticiário em LGP.
Meus olhos doíam de tanto tentar focar nos movimentos rápidos e o cansaço mental foi enorme.
Eu não entendia praticamente nada.
Isso acontece porque a raiz dessas línguas surge de forma espontânea na comunidade, sem depender das regras do idioma falado.
Origem das línguas de sinais e influências históricas
Aqui está aquele fator histórico que mencionei antes.
Muitas línguas de sinais se espalharam pelo mundo através de educadores que viajaram para fundar escolas para surdos, adaptando-se depois às culturas locais.
A Língua de Sinais Americana (ASL) foi fortemente influenciada pela Língua de Sinais Francesa no século 19, graças ao educador Laurent Clerc.
Hoje, a ASL e a língua francesa compartilham cerca de 58% do seu vocabulário base.
Em contrapartida, a ASL é quase ininteligível para um usuário da Língua de Sinais Britânica.
Apenas cerca de 31% dos sinais coincidem.
Parece estranho.
Americanos e britânicos falam inglês.
Mas os surdos americanos se comunicam melhor com os franceses do que com os ingleses.
O que isso nos diz?
A identidade cultural surda tem a sua própria linha do tempo e geografia.
Diferenças entre as principais línguas de sinais
Para entender o quão distintas elas podem ser, vejamos as diferenças práticas entre três idiomas comuns.Libras (Língua Brasileira de Sinais)
- Utiliza apenas uma mão para todas as letras
- Forte influência da Língua de Sinais Francesa, trazida ao Brasil no século 19
- Costuma focar na estrutura de Tópico-Comentário, muito visual e espacial
LGP (Língua Gestual Portuguesa)
- Também utiliza apenas uma mão, mas com configurações diferentes do Brasil
- Desenvolvida de forma autóctone com influência sueca no século 19
- Possui expressões faciais e marcações corporais exclusivas de Portugal
ASL (American Sign Language)
- Uma mão, mas com variações de velocidade dependendo da região dos EUA
- Mistura da antiga língua de sinais de Martha's Vineyard com a francesa
- Altamente dependente de classificadores visuais e ritmo próprio
O choque cultural de Lucas em Lisboa
Lucas, um estudante de design de 22 anos em São Paulo, viajou para um intercâmbio em Portugal. Ele é surdo e fluente em Libras. Ele acreditava firmemente que a comunicação seria fácil porque, no fim das contas, ambos os países falam português.
Logo no primeiro dia, Lucas tentou pedir informações no metrô usando Libras. A sua tentativa inicial falhou miseravelmente - as pessoas surdas locais que encontrou não o entenderam. O alfabeto manual era diferente, os sinais básicos não faziam sentido. Ele sentiu um nó na garganta ao perceber que estava praticamente isolado.
A grande virada aconteceu quando ele parou de tentar forçar a Libras e começou a observar. Ele percebeu que precisava aprender a LGP como se fosse uma língua totalmente estrangeira. Ele passou a focar nas expressões faciais e na cadência rítmica da língua portuguesa, que eram o verdadeiro segredo.
Após 4 meses de esforço diário, Lucas relatou que sua fluência em LGP melhorou de forma drástica. Ele conseguiu fazer amigos e se comunicar no dia a dia, compreendendo finalmente que a comunidade surda dita as regras do idioma, e não as fronteiras da língua oral.
O que levar para casa
Independência total das línguas oraisPaíses que falam o mesmo idioma (como Brasil e Portugal ou EUA e Inglaterra) possuem línguas de sinais completamente diferentes.
As influências históricas importam maisA migração de educadores moldou os idiomas. É por isso que a ASL americana tem quase 60% de similaridade com a língua francesa, e não com a britânica.
Criação natural e espontâneaAs línguas de sinais nascem organicamente sempre que comunidades de surdos se reúnem, criando um ecossistema com cerca de 130 a 300 idiomas mundiais ativos hoje.
O que mais você precisa saber
A língua de sinais é universal?
Não. Não existe uma única língua de sinais no mundo. Cada comunidade surda desenvolve a sua própria língua de forma natural e espontânea, adaptando-se à cultura, história e necessidades locais do seu país.
Por que Libras não é igual a ASL?
Embora ambas tenham influência da Língua de Sinais Francesa, elas evoluíram em continentes diferentes, com influências culturais e indígenas distintas. A ASL absorveu elementos de línguas locais nos EUA, enquanto a Libras se misturou com gestos e tradições brasileiras.
Se um surdo do Brasil for para os EUA, ele consegue se comunicar?
Não imediatamente. Ele precisará aprender a ASL. Embora existam alguns sinais básicos e classificadores visuais que podem ajudar numa comunicação de sobrevivência, a gramática e o vocabulário são completamente diferentes.
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